Milhões de pessoas comem arroz todos os dias, seja num jantar rápido em casa, seja num prato de cozinha asiática num restaurante. Quase ninguém associa este alimento a contaminantes. No entanto, há anos que investigadores vêm a alertar: o arroz pode conter quantidades relativamente elevadas de arsénio inorgânico, capaz de desencadear problemas de saúde graves quando a exposição se prolonga no tempo. Dados mais recentes apontam agora para uma forma de cozedura que reduz de forma clara o teor de arsénio - sem transformar o arroz numa “terra de ninguém” do ponto de vista nutricional.
Porque é que o arroz contém arsénio
O arsénio existe naturalmente em rochas e solos. Com a erosão e a meteorização, acaba por passar para as águas subterrâneas. E é precisamente aí que reside a dificuldade: o arroz é cultivado em campos inundados. Durante semanas, as plantas permanecem com as raízes em água que é absorvida - juntamente com o arsénio dissolvido.
Comparado com muitos outros cereais, o arroz tende a acumular este arsénio com maior intensidade. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) associa o arsénio inorgânico, entre outros efeitos, a um risco acrescido de certos tipos de cancro, sobretudo da pele. O impacto é mais relevante em regiões onde o arroz é consumido diariamente e em grandes quantidades - mas também na Europa se procura manter a exposição o mais baixa possível.
Por isso, a União Europeia definiu limites legais: o arroz branco tem valores máximos mais exigentes do que o arroz integral (isto é, o arroz castanho), porque as camadas exteriores do grão tendem a reter mais arsénio. Estes limites aplicam-se ao produto final colocado no mercado - não ao modo concreto como cada pessoa o cozinha em casa.
Lavar o arroz, usar muita água, usar pouca água - o que faz mesmo diferença?
Nas redes sociais circulam inúmeros truques que prometem “lavar” o arsénio. O mais comum é enxaguar o arroz várias vezes, até a água ficar transparente. A ideia parece fazer sentido, mas estudos indicam que esta prática pouco altera o arsénio - e, além disso, pode arrastar nutrientes para a água.
Por essa razão, autoridades de saúde nos EUA apontam sobretudo outra abordagem: cozer o arroz em muito mais água. Por exemplo, para uma chávena de arroz, recomendam usar seis a dez chávenas de água e, no fim, escorrer o excesso.
"Cozinhar em muita água pode reduzir o teor de arsénio no arroz, segundo estudos, em cerca de 40 a 60 por cento - mas custa muitas vitaminas e minerais."
Aqui está o dilema: quanto maior for o volume de água e quanto mais prolongada for a cozedura, mais arsénio passa para o líquido - mas o mesmo acontece com nutrientes sensíveis ao calor e solúveis em água, como vitaminas do complexo B e minerais. Há investigações que mostram que, com este método, podem perder-se até 70 por cento de certas vitaminas.
O método combinado: ferver primeiro e depois deixar absorver em água fresca
Por isso, uma equipa de investigação da Universidade de Sheffield testou uma técnica alternativa. O objectivo era claro: retirar grande parte do arsénio e, ao mesmo tempo, preservar melhor os nutrientes. Entre especialistas, o processo é descrito, em termos gerais, como “etuvagem com absorção” - no dia a dia, pode ser entendido como uma cozedura em duas etapas.
Como preparar arroz com menos arsénio, passo a passo
- Medir o arroz: colocar a quantidade pretendida num tacho, como habitualmente.
- Levar a ferver com bastante água: cobrir o arroz com muita água (à semelhança do que se faz com massa) e levar ao lume até ferver.
- Ferver vigorosamente durante cinco minutos: manter em ebulição cerca de cinco minutos.
- Escorrer totalmente a água: deitar fora a água de cozedura - nesta fase já ficou retida uma parte importante do arsénio.
- Juntar água nova: adicionar então uma quantidade menor de água fresca, seguindo aproximadamente a regra “1 parte de arroz, 1,5 partes de água”.
- Cozer em lume médio: tapar e deixar cozinhar em lume médio até a água ser absorvida.
- Deixar repousar brevemente: retirar do lume e deixar o arroz repousar alguns minutos para libertar vapor.
Os resultados são expressivos: no arroz branco, o teor de arsénio pode diminuir cerca de 73 por cento com esta técnica; no arroz integral, a redução chega a aproximadamente 54 por cento. Ao mesmo tempo, oligoelementos importantes, como o zinco, mantêm-se de forma bem mais robusta do que na opção clássica de “muita água e escorrer”.
"O método em duas fases é, neste momento, um dos melhores compromissos: muito menos arsénio, sem enfraquecer de forma acentuada o valor nutricional do arroz."
Até que ponto o arsénio é um problema no dia a dia?
Casos de intoxicação por arsénio no sentido “clássico” são raros na Europa. A preocupação principal é a exposição crónica a doses baixas ao longo de muitos anos. Quem come arroz com muita frequência - diariamente ou várias vezes por semana - pode acumular uma ingestão mais elevada do que alguém que apenas come ocasionalmente uma porção de risoto ou arroz de sushi.
Crianças, grávidas e pessoas com problemas de saúde pré-existentes tendem a ser mais sensíveis. Além disso, alguns padrões alimentares - como uma dieta sem glúten - recorrem muito a produtos de arroz: tortitas de arroz, papa de arroz, massas de arroz, bebidas de arroz. Nestes casos, as quantidades podem somar-se sem que seja imediatamente evidente.
Quem deve estar especialmente atento?
- Famílias em que as crianças consomem frequentemente tortitas de arroz ou papa de arroz
- Pessoas com uma alimentação muito centrada em arroz (por exemplo, por doença celíaca)
- Quem come regularmente várias refeições com arroz por semana
- Agregados que usam muitas vezes arroz integral, que pode acumular mais arsénio
Para estes grupos, o novo método de cozedura compensa em particular, porque reduz o risco sem exigir um grande esforço adicional.
Como reduzir ainda mais o risco de arsénio
O modo de cozinhar é apenas uma das alavancas. Quem quiser baixar ainda mais a ingestão pode combinar estratégias simples no dia a dia:
- Variar os acompanhamentos: nem todas as refeições precisam de arroz - batata, milhete, cuscuz ou quinoa ajudam a diversificar.
- Ter atenção aos produtos de arroz: tratar tortitas de arroz e bebidas de arroz como complementos ocasionais, não como base alimentar.
- Considerar a qualidade da água: em zonas onde a água tem qualidade problemática, pode fazer sentido usar água filtrada.
- Rever as porções: quem consome grandes quantidades beneficia de forma desproporcionada de medidas que reduzam o arsénio.
Muitos consumidores subestimam o impacto que as técnicas de cozedura podem ter na exposição real a contaminantes. Um arroz vendido no supermercado pode cumprir os limites da UE, mas, com a técnica certa, ainda é possível baixar de forma significativa a carga final - sem abdicar deste alimento tão comum.
O que explica arsénio, nutrientes e limites legais
O arsénio apresenta-se em várias formas químicas. Do ponto de vista da saúde, a mais importante é o chamado arsénio inorgânico. Esta forma tende a fixar-se com maior facilidade no organismo e é suspeita de favorecer, além do cancro, doenças cardiovasculares e alterações do metabolismo.
Em paralelo, a fiscalização alimentar procura definir limites que sejam exequíveis: na natureza, não é possível eliminar totalmente o arsénio. O desafio está em manter a exposição global suficientemente baixa para que o risco a longo prazo seja o menor possível - e é aqui que a cozinha doméstica tem um papel inesperadamente relevante.
Nutrientes como folato, niacina ou tiamina são vitaminas do complexo B solúveis em água. Quando o arroz cozinha durante muito tempo e em muita água, estes compostos passam rapidamente para o líquido. É por isso que a técnica em duas fases se destaca: a primeira etapa remove uma parte considerável do arsénio; a segunda, com pouca água, limita perdas adicionais de nutrientes.
Quem leva arroz à mesa com regularidade pode, com apenas mais alguns minutos de atenção, reduzir contaminantes e melhorar o perfil nutricional. Em cozinhas familiares, cantinas e restaurantes, este procedimento também se implementa com facilidade - acrescentando um pequeno, mas eficaz, contributo para uma alimentação mais saudável.
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